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6 de março de 2009

"HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS' diz o cardeal

O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: «Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimos, especialmente, àqueles que se sentem pequenos o pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos». Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.

Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a «outra Igreja possível», ao serviço do «outro Mundo possível». E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.

Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, «é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade»; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos...

A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar à Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.

Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente «o sonho de Luther King», querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.

Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum modo podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a vivermos uma «ecologia profunda e integral», propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de «alta intensidade».

Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. «Meu Deus, me deixa ver a Deus?». Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: «Não será assim entre vocês» (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela «expressão mais alta do amor fraterno» (Pio XI).

Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. «Ainda cantamos, ainda sonhamos». Nós nos atemos à palavra de Jesus: «Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda» (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro y, em todo o caso, mais uma vez e sempre, «eu me atenho ao dito: a Esperança».

Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: «A velhice é uma espécie de postguerra»; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

Pedro Casaldáliga
Circular 2009

20 de fevereiro de 2009

Juventude !!!

DOM HELDER CÂMARA
Arcebispo de Olinda e Recife

(Palestra de abertura do X Congresso da UCBC. Florianópolis, 28 de outubro de 1981)

1. Juventude a grande comunicadora
Um dos sinais de esperança, tanto em nossos países chamados subdesenvolvidos, como nos países industriais e ricos da Europa Ocidental e da América do Norte, é a juventude, tal como a encontramos, decidida a nao medir sacrifícios para imprimir à comunicação suas autênticas medidas e sua missão explêndida de tornar-se uma sinfonia universal, ajudando de modo válido os seres criados a diálogos autênticos entre si e o diálogo supremo com a o criador e Pai!
2. A verdadeira e a falsa juventude
Um jovem ou uma jovem, mesmo na flor da idade, que contempla o mundo como feira em liquidação, como mágica idiota, como absurdo sem saída e sem fim, já é um velho ou velha, precisando urgente de uma bengala ou um sanatório...
O jovem-jovem, jovem na verdade, tem sede de conhecer os grandes problemas humanos. Não os teme. Não entra em pânico. E vibra por viver em temos nos quais a comunicação supõe medidas profundas e ciclópicas de aproximação não só entre homens ou entre classes, mas entre mundos...
3. Pedras no caminho
Os jovens que enveredam pelo caminho de viver e fazer viver a comunicação como enfrentamento dos grandes problemas humanos; os jovens que se decidem a ajudar a criar um mundo mais respirável, mais justo e mais humano, tornam-se exigentes em casa, na escola e na Igreja. Tornam-se questionadores dos pais, dos professores e dos pastores. Exigem coerência, autenticidade. Ninguém lhes venha com meias-palavras. ninguém desfaça com a vida o que dizem os belos conselhos. Ninguém lhes fale sobre o nosso país como se o Brasil precisasse de nossas patrióticas inverdades ou meias-verdades. Ninguém lhes fale sobre religião, como se Deus precisasse de nossas piedosas mentiras...
Os jovens, quando não estão ainda bem mergulhados na posição de autênticos comunicadores, no largo e belo sentido que a comunicação pode e deve ter, e quando encontntram pessão forte, sobretudo em casa, e por vezes caem no comodismo de ser apenas filhos de papai rico, às vezes param no hipismo, quando nao derrapam para as drogas...

(Retirado do livro "Juventude e dominação cultural")

15 de fevereiro de 2009

FSM em Belém do Pará– 27.01.09 a 02.02.09

Relatório sintético feito por Pe. José Ernanne Pinheiro, Secretário Executivo do CEFEP e Assessor Político da CNBB
Realizado em Belém do Pará, como porta de entrada da Amazônia, de 27 de janeiro a 02 de fevereiro de 2009, o Fórum Social Mundial (FSM) é o maior espaço de debates e articulação de movimentos sociais no mundo. De fato, um laboratório de idéias em intercâmbio, oferecendo possibilidade de construirmos uma globalização solidária. Nascido como contraponto ao Fórum Econômico de Davos-Suiça, aos poucos o FSM constrói sua autonomia, identidade e a razão de ser em si mesmo.
Nesta edição, participaram do encontro 135 mil pessoas. Destas, 4,8 mil eram voluntários, 5,2 mil expositores de tendas temáticas e oficinas de trabalho, mil eram artistas, 4,5 mil profissionais da imprensa.
O FSM não é uma entidade; dentro dele, há várias entidades à luz da sua Carta de Princípios.
O conselho internacional funciona como serviço para a facilitação dos trabalhos. Do evento não saem decisões fechadas. Propõe uma nova cultura política, em que ninguém seja dirigente de ninguém.
As atividades do Fórum são organizadas por instituições, movimentos sociais, ONGs e grupos independentes. Nesse modelo, cada um apresenta o seu debate, expõe as suas idéias e cria suas propostas e ações. Este ano, 5,8 mil entidades e organizações se inscreveram. Entre elas, 4.193 eram de países da América do Sul, 491 de nações européias, 489 de países africanos, 334 da Ásia, 155 da América do Norte, 119 da América Central e 27 de países da Oceania.
Esta nova edição do Fórum aconteceu num contexto de várias crises mundiais: energética, econômica, ambiental, cultural e política. Havia uma convicção dominante, explicitada durante os debates: estamos diante de uma crise de modelo de civilização.
Com mais insistência que nos outros fóruns, estamos sendo urgentemente chamados a construir “outro mundo possível” e não só resistir. Este outro mundo se torna mesmo necessário e urgente, afirmam os participantes.
Realizar a 9ª. Edição do Fórum na Amazônia evidencia o reconhecimento da importância vital dos recursos naturais aí existentes. Construído com a participação dos povos desta região, o Fórum será seguramente um espaço para a formulação de alianças e plataformas de ação e luta que fortaleçam os processos já em curso e possibilitem a criação de novos.
**Como nós, Católico Apostólicos Romanos, poderemos contribuir no "novo mundo"?
**O que possamos fazer, enquanto leigos e leigas, para que junto à igreja possamos atingir uma sociedade mais justa e solidária?

8 de dezembro de 2008

Meus olhos viram a Tua Salvação


Dom Benedicto de Ulhôa Vieira

Aproxima-se a festa do Natal. Para os que têm fé, Natal é a chegada feliz de Deus que vem a nosso encontro para nos fazer irmãos e nos ensinar os caminhos do bem. Veio na frieza da noite para acender em nós o fogo do amor e nos fazer irmãos. Veio pobre para nos dar a riqueza de Deus. Os anjos iluminaram a noite e trouxeram a mensagem do céu: “Nasceu hoje para vós o Salvador” (Lc 2, 10). Isto era o Natal...

Infelizmente hoje o Natal é festa comercial: vende-se muito e desperta-se a necessidade de comprar. A festa atual é do comércio. Perdeu-se o clima da reunião da família, em que as crianças se alegravam com seus pequenos presentes: bolas, bonecas, carrinhos. Tudo simples e familiar, recordando a chegada de Deus-Menino nos braços de Maria.

Entre as cenas tão lindas da chegada de Jesus, de que São Lucas nos dá noticia, uma tem especial sentido para as pessoas idosas. A lei mosaica determinava que o primogênito recém-nascido fosse levado ao templo de Jerusalém para ser resgatado por um casal de pombos. José e Maria levaram o Menino ao templo, cumprindo o preceito da lei antiga.

Ali, no momento da oferta, estava providencialmente presente um ancião a quem Deus prometera que haveria de contemplar, na altura de seus vividos anos, o esperado Salvador da humanidade. Por isto tomou nos braços cansados o Menino de quarenta dias e louvou a Deus por terem seus olhos tido a alegria de contemplar o rosto dAquele que era esperado já há séculos.

Sob a brancura dos cabelos, olhos úmidos de alegria incontida, os braços se erguem com a Criança e dos lábios brota o hino de ação de graças: “Agora podes deixar partir este teu servo porque meus olhos já cansados puderam contemplar nesta Criança a salvação que vem de Deus”.

É assim que se espera o Natal e assim que se celebra esta festa. É no encontro com o Salvador que sentimos a felicidade de nossa vida. Natal é festa de amor para todos: para os velhos cansados da vida, há um reconforto de esperança; para os adultos, a certeza da presença de Deus que veio para ficar conosco; para os jovens, uma ocasião para escolher certo o rumo de seus passos; para os que ainda vão nascer a alegria de ter Deus bem perto de suas vidas inocentes.

Restabelecer pois a verdade do Natal. Na azáfama das compras, não perder o sentido real da festa da chegada de Deus entre nós. Moços e velhos, crianças e adultos, temos de preparar-nos para este encontro de salvação, de alegria e de graça com o Menino que nos foi dado na noite de Belém.


Fonte: http://www.cnbb.org.br/ns/modules/articles/article.php?id=373

19 de novembro de 2008

Dia Nacional da Consciência Negra


Viva Zumbi!

20 de novembro

O que significa ter Consciência Negra no Brasil?

Ter Consciência Negra é compreender que a intenção do projeto de colonização do Brasil pelos brancos portugueses era lucrar com o tráfico e venda de escravos, lucrar com a produção de açúcar, de café, de algodão, de pedras preciosas e, além disso, impor a cultura branca, que eles imaginavam ser superior, aos negros e povos indígenas.

É saber que os trezentos e cinqüenta anos de escravidão portuguesa tiveram como resultado: cinco milhões de africanos seqüestrados durante o período da colonização; o Brasil foi o penúltimo País a abolir o tráfico de escravos, em 1850 e o último a abolir oficialmente a escravidão, em 1888.

Que a escravidão praticada pelos brancos portugueses era violenta. Portanto, não podemos esquecer as torturas e maus-tratos contra os nossos descendentes; as longas jornadas de trabalhos, a má alimentação e a vida miserável nas senzalas; e que aos negros escravizados não era permitido constituir famílias e nem praticar as suas religiosidades trazidas da África.

Que é uma grandiosa mentira quando eles dizem que os nossos antepassados aceitaram tudo isso de forma passiva. Os negros na história da escravidão do Brasil reagiram individual e coletivamente. Fugiram das fazendas escravistas, organizaram rebeliões, revoltas e Quilombos. Por isso Zumbi até hoje é lembrado no dia 20 de novembro! O Quilombo de Palmares resistiu por mais de cem anos a mais de vinte e cinco expedições armadas, e muitos outros Quilombos se espalharam pelo País: e isso é uma das provas de que o nosso povo reagiu.

Que os descendentes de Zumbi hoje continuam a sua luta. Continuam porque a escravidão acabou, mas os brancos inventaram o racismo como uma nova forma de escravizar os negros. E o que é o racismo? O racismo é uma idéia monstruosa construída para justificar que o negro não possui capacidade para governar e nem para assumir um alto cargo público; que as profissões apropriadas para os negros são aquelas recusadas pelos brancos, como as de empregados domésticos e garis, entre outras; que nos locais freqüentados pelos brancos o negro não é bem-vindo; que as culturas dos negros, como a Capoeira, são primitivas e selvagens.

Ter Consciência Negra é uma atitude e um compromisso com o nosso povo e com cada um de nós. Não podemos aceitar o que dizem o que falam e as condições humilhantes que nos querem impor.

Ter Consciência Negra é cobrar dos governantes e da sociedade brasileira tudo o que nos é devido.

Ter Consciência Negra é olhar no espelho e apreciar a nossa beleza; é gostar da cor da nossa pele, do formato do nosso nariz e da textura do nosso cabelo; é valorizar a nossa música, a nossa maneira de dançar e todas as artes que criamos; é reconhecer que as religiões de matrizes africanas permaneceram até hoje porque elas preservaram o espírito comunitário e familiar de organização.

Ter Consciência Negra é saber que Zumbi é o nosso maior herói!

VIVA ZUMBI! 20 DE NOVEMBRO, DIA NACIONAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA!


Fr. Márcio Benevides, CSJ, membro do GRENI (Grupo de Religiosos Negros e Indígenas).

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